Ora cá estamos. Decorrida quiçá uma meia década, e a pedido de duas ou três pessoas (ok... uma, se excluirmos a minha mãe), estou de volta para vos deliciar com um texto que promete ser mais bem compostinho do que aquilo a que tão bem tenho habituado os meus fiéis 6.2 seguidores.
Calma. Não fiquem já a pensar que a Teresa que agora vos escreve - depois de licenciada em Direito, depois de passar pelo estágio na Ordem dos Advogados e depois de deitar esses anos todos fora aventurando-se no trabalho marítimo - agora está uma senhora madura e com uma vida rica e a transbordar estabilidade. Continua tudo na mesma! A diferença é que agora tenho bastante prazer em ser uma pateta alegre e nada me deixa mais feliz do que poder exteriorizar o meu lado excêntrico com a auto-confiança que as águas internacionais me deram.
#1. E começo exactamente por aí: o Desenvolvimento da Personalidade.
Quem se aventura a ir trabalhar para um hotel que flutua pelo mar, em 90% dos casos vai sozinho. Selecciona todos os items que considera essenciais à sua sobrevivência durante 6 ou 8 meses, atafulha-os todos dentro de uma ou duas malas, mete-se num avião e seja o que Deus quiser!
Este ritual é feito com muitas dúvidas, incertezas e medos. Quando, há dois anos e picos, dei por mim a dizer adeus à minha mãezinha no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, o meu estômago começou a fazer ioga. "E agora, se alguma coisa correr mal.... Desenmerdo-me!" Pensei. É um pensamento agonizante mas quando finalmente aceitamos que nem tudo está sob o nosso controle, surge uma sensação de alívio e de segurança que não consigo descrever. Lembro-me de me ter sentido uma verdadeira Wonder Woman. E a partir daí passei a viver a minha vida de uma nova forma: passo a passo. Tento sempre ser prudente e cautelosa, tento planear as minhas caminhadas. Mas agora sei aceitar o desconhecido e manter a mente aberta às oportunidades que vão surgindo. Às vezes, o foco no objectivo acaba por nos limitar, pois deixamos de responder aos estímulos que nos rodeiam e que começamos a ver como distracções e obstáculos. Essas distracções muitas vezes são alternativas ou até mesmo oportunidades melhores mas que subconscientemente ignoramos na convicção de estarmos a seguir o que é melhor para nós. Ao perceber que cada dia traz novas aventuras e desafios, aprendi a estar constantemente pronta para "a guerra", a ter os meus sentidos mais alerta. Estar sozinho num mundo multi-cultural obriga-nos a chegar ao limite do nosso potencial. Temos de ir buscar toda a inteligência possível para nos adaptarmos o quanto antes ao meio circundante. Por exemplo: eu sempre fui exímia a expressar-me na língua portuguesa. Nos navios isso não me serve de nada. Ok, não foi um bom exemplo. Mas acho que percebem o que quero dizer. Têm de estar atentos à linguagem corporal dos colegas e dos passageiros. Têm de aprender mil e uma regras sobre um mundo completamente novo. Têm de aprender a expressar-se em línguas estrangeiras. Têm de saber controlar as emoções 24h por dia, porque nunca - reforço NUNCA - se está sozinho.
#2. A propósito de nunca se estar sozinho: a Falta de Privacidade.
Nos cruzeiros, trabalha-se por equipas. Há o departamento do atendimento ao cliente, o dos músicos, o do entretenimento, o dos fotógrafos, o dos oficiais, o dos cozinheiros, o dos dançarinos, o dos clubes das crianças, etc., etc.. As equipas trabalham cerca de 12h por dia. Estamos juntos no local de trabalho mas também nas pausas para refeições e também quando saímos do trabalho, pois continuamos fechados no mesmo sítio e só há um local onde podemos socializar se não quisermos comer ou dormir: o crew bar. Para comer, temos as Staff e Crew Mess, os oficiais têm Officer Mess que é uma cantina com comida menos medíocre (a qualidade da comida varia com as companhias de cruzeiros, mas em regra geral não é má... Só não é muito amiga de quem quiser seguir uma dieta saudável). No que toca a dormir, temos as cabines, que tirando posições mais privilegiadas, são compartilhadas com um colega do mesmo departamento. E no tal Crew Bar, é onde se mistura toda a tripulação. O que tem lá? Bebidas a preço da chuva e a possibilidade de andar com roupa pessoal, desde que se use o crachá com o nome - que é obrigatório sempre que estejamos a bordo. Toda a gente sabe três coisas sobre nós: o nome, o cargo e a nacionalidade. E eu, como recepcionista de Spa, conseguia com o nome saber mais coisas sobre a malta, porque era só meter o nome no sistema e dava para ver também a foto da pessoa no dia do embarque, a idade e número da cabine! Se era útil, isso agora... Mas é para verem como a privacidade é coisa que não existia. Para ficar sozinha, só mesmo na casa de banho! E mesmo aí...
Vou partilhar a pior situação que me aconteceu neste último contrato.
A minha colega de cabine era uma menina muito serena e simpática, oriunda da Indonésia, com cerca de 22 anos de pureza naqueles ossinhos robustos e feições harmoniosas do oriente. Uns 4 ou 5 dias depois de eu chegar àquele navio, já com a minha barriga tipo balão de aniversário, vou finalmente ao nosso cubículo de wc, para arrear o que viria a ser não um calhau, mas uma reconstituição do Cromeleque dos Almendres. Sucede que eu não gosto de trancar portas, especialmente quando estou nos navios, porque nunca se sabe o que poderá acontecer. Ora então, a minha prezadíssima colega de cabine decide abrir a porta do cubículo, quando eu tinha acabado de fazer a maquete do megalítico, que ainda estava a sedimentar no fundo do trono, libertando todos aqueles vapores de decomposição, depois de ter estado dias a fermentar no meu intestino. Mais tarde, a miúda veio a confessar ter ficado com a sensação de que eu tinha saído da cabine em vez de ter entrado no wc porque - para minha grande surpresa - lhe pareceu tudo muito silencioso. Eu disse-lhe que ainda que tenha sido embaraçoso para mim, certamente que levar com aquela aragem pérfida sem estar a contar deve ter sido mil vezes pior. Encarem a realidade, meus senhores. Meninas bonitas também cagam. E quando se viaja, o assunto é sério. Muito sério.
#3. O Protagonismo.
A multi-culturalidade a bordo não é novidade para ninguém. O que talvez seja novidade é que ser europeu é quase como ter sangue azul. Eu não fazia a mínima ideia disto, mas para a malta do oriente, as nossas feições são consideradas exuberantemente bonitas. Eu, no meio daquela gente toda sinto-me uma Taylor Swift.
Acresce que - e quem me conhece pessoalmente sabe que não estou a mentir - eu sou uma miúda dotada de uma simpatia extrema, e tenho desenvolvido ao longo dos anos um à vontade muito peculiar, sendo que de um momento para o outro deixo de me comportar como a Primeira-Dama e passo a uma vendedora de castanhas do Bolhão. Quando estou nos navios, os meus colegas idolatram-me pelo simples facto de lhes dizer olá com um sorriso. E eu não me coíbo de abraçar este papel de estrela da Casa dos Segredos que naturalmente me cai sobre as costas: aceito tirar fotos com a rapaziada da lavandaria com a mesma satisfação com que agradeço os chocolates e garrafas de vinho tinto do melhor que houver a bordo.
Há algo de maravilhoso nesta popularidade marítima: é que quando retorno a casa, os meus próprios vizinhos que moram neste prédio tal como eu há quase vinte anos têm dificuldade em reconhecer-me e é raro tomarem iniciativa para dizer "bom dia". O que há de maravilhoso nisto? Uma vida dotada de tranquilidade.
#4. O Ódio pelos Passageiros.
A indústria dos cruzeiros é movida pelo (dinheiro do) Passageiro. Esse ser que se assemelha à figura mítica do Ogre.
O Passageiro é um ser com metade do QI em vinha d'alhos, pois está em modo vacances.
Todos os dias, a tripulação é forçada a relembrar-se de que, sem os passageiros, não haveria dinheiro a entrar para os salários. Os nossos empregos existem porque é preciso servir os passageiros.
Contudo, por muito que se repitam estas premissas, a nossa boa vontade é posta à prova constantemente.
Isto acontece porque o Passageiro não quer saber se chegaste ontem ao navio e tens dificuldade em dar com a tua cabine quando sais do local de trabalho. Ele precisa de saber onde são servidos os snacks da tarde e precisa de saber JÁ, incluindo as coordenadas do local e horário de funcionamento.
O Passageiro não quer saber se ligou para o Spa. Precisa da cama de casal na sua cabine, tal como tinha pedido. E não de duas camas individuais.
O Passageiro não tem em conta o uniforme branco com as listas no ombro ou o macacão de quem trabalha com os motores. Ele está com sede e quer pedir um cocktail (de preferência sem pagar extra porque já pagou a estadia).
O Passageiro não quer saber se estás finalmente nos teus sagrados 45 minutos de break para jantar, após 7h de pé atrás de um balcão. Ele precisa de encontrar um wc e quer que o leves pelo braço porque está farto que lhe dêem indicações e também não gosta de interpretar sinais.
O Passageiro quer que arranjes algo para entreter o seu filho no Spa o dia inteiro porque está farto de o aturar e quer ir esbanjar dinheiro no Casino.
Enfim. Podia passar a tarde a enumerar situações que fizeram crescer dentro de mim este sentimento de repúdio para com passageiros. São criaturas que amamos odiar e odiamos (fingir) amar.
#5. As Amizades que ficam para a vida.
Quando decidimos meter a casinha às costas e enveredar nesta aventura, deixamos a nossa cama para trás, a comidinha caseira, o conforto da família, as manhãs patrocinadas pela Rádio Comercial, as cafezadas com os amigos, etc., etc.... Mas a partir do momento que chegamos ao navio, todos os colegas que conhecemos estão na mesma situação. Estamos literalmente todos no mesmo barco. E algo de mágico acontece. Criam-se relações de amizade próximas em 2 ou 3 dias. As pessoas apaixonam-se loucamente. Odeiam-se num piscar de olhos. Fazem as pazes ou passam a ignorar-se. Separam-se e reencontram-se. Há todo um carrossel de emoções que só quem já lá esteve sabe como é. É tudo rápido e muito intenso. E este contacto tão próximo com gente do mundo inteiro é para mim, talvez, o melhor que esta vida de marinheiro oferece. Já nem vou entrar na parte de andar lá muito boa gente a experimentar nacionalidades, como quem vai a um buffet temático de comidas do mundo... É que uma pessoa vê e ouve cada coisa de ficar de boca aberta. Fica o aviso: quem for mais reticente a maneiras diferentes de encarar a vida, que fique por terra porque no mar só anda gente doida. Foi o que me disseram quando lá cheguei. E acrescentaram logo "mas não faças esse ar de espanto porque se também cá estás, certamente que também não jogas com o baralho todo".
Reparem que nem vos falei da parte de viajar, que é um tema tão prazeroso. A verdade é que aquelas fotos maravilhosas da malta que trabalha nos cruzeiros são um engano. Na esmagadora maioria dos casos, os chefes dão-nos umas míseras três ou quatro horitas a meio do dia para sair do navio e ir brincar às pessoas livres e felizes. Uns pegam nessas horas e vão dormir. Outros decidem tirar o máximo partido daquele precioso tempo. Tudo depende do estado de exaustão daquele dia e também das prioridades de cada um.
E aqui fica um pouquinho daquilo que é trabalhar a bordo de uma embarcação de passageiros. Não vou alargar mais o tema, sob pena de me tornar fastidiosa. Aguardo com ansiedade o feedback daquelas almas corajosas que chegarem ao fim do texto. Um abraço forte e até breve.
Onde o fútil, o inútil e o insignificante ganham forma... Dentro de uma perspectiva cor de rosa.
Advertência
A Esquizofrenia Cor de Rosa é um espaço onde são despejados pensamentos, o mais inalterados possível da sua forma primordial. Não se pretende aqui construir um "cantinho" de discussão científica, filosófica, religiosa, histórica ou de qualquer outra índole. A realidade dança o tango com a ficção; o senso comum luta com a ciência, numa batalha onde ninguém sairá vencedor. Cabe-lhe a si, leitor, interpretar da maneira que lhe aprouver. Sinta-se livre para comentar, criticar ou lançar sugestões!
terça-feira, outubro 16, 2018
quarta-feira, fevereiro 27, 2013
O marginal do século XXI
Todos aqueles que já sentiram o olhar de reprovação da comunidade quando comentaram que ficam acordados até às 4 da manhã sabem qual é a sensação.
Numa era em que a tecnologia é tão importante na vida do ser humano como a higiene pessoal (ou até talvez mais), é incrível como é que alguém é visto como um delinquente se não tiver necessidade de dormir oito horas por noite.
Tenho por facto que a informação científica disponibilizada na Internet é tão útil como um dicionário de alemão numa jaula de macacos. E digo isto com muita seriedade (dentro dos limites da comparação, claro está). Sinto-me horrorizada quando ouço mulheres da minha idade - e até mais novas - a afirmar de nariz empinado que a pílula faz mal. "Então porquê?" - retorquiria um ser humano com escolaridade superior ao 5º ano do ensino básico - "Porque estamos a provocar alterações hormonais que o nosso organismo não sofre naturalmente" - respondem estas eruditas com quem às vezes tenho a infelicidade de trocar ideias. É uma resposta aceitável... Para quem vive na Rondónia. É engraçado, porque eu até tenho ideia de que as mulheres, antes de haver métodos contraceptivos, sofriam menos de cancro. Só que enquanto eu acho que isso se deve ao facto de as mulheres há cem anos atrás parirem aos 6 e 7 filhos em média, estas alfaces com pernas acham que é porque ingerimos coisinhas que fazem mal (mas ingerem-nas na mesma). Pois claro que não há relação nenhuma entre as doenças do foro ginecológico e o excesso de ovulações, por sua vez derivado da falta de fecundação. Faz muito mais sentido que tenha a ver com o uso de telemóveis ou do consumo de pizza duas vezes por mês!
Depois há aqueles assuntos em que se pega na informação útil e se interpreta da maneira que mais convém - um bocado à semelhança dos sofismas da Grécia Antiga ou da argumentação dos bons advogados das séries americanas. - Deixo aqui a ressalva de estar completamente fora da minha área de estudos. - Mas ainda ontem me deparei com a notícia de que "comer iogurtes e tostas mistas faz mal". Todos os dias o meu mundo entra em colapso com este tipo de revelações. É verdade. Há uma parte de mim que morre. A secção "fé na humanidade" neste momento deve rondar os 0,72% na minha convicção para-religiosa. Nem vou desenvolver a parte de eu usar pão de forma - ainda que seja integral - , caso contrário vou já para a prisão! Mas voltando a questão para o lado dos iogurtes (magros, ainda por cima), fazem mal porque, pelos vistos, o cálcio não é bem absorvido sem exercício físico. Talvez o que se queira dizer é que o exercício físico ajuda à absorção do cálcio... Mas da maneira que me veio o raspanete pareceu foi que não me adianta de nada ingerir cálcio porque sou sedentária. O que me leva para o próximo tópico.
Ser sedentário é ter uma corda ao pescoço. É basicamente abrir os braços aos tumores e à SIDA. Qual sexo desprevenido, qual quê! Não frequentar o ginásio é a pior doença da humanidade neste momento! Até se pode mandar umas meta-não-sei-quantas para a veia de vez em quando se no dia a seguir for queimar calorias para uma máquina de step. Mas ficar de rabinho sentado a ver um filme ao final do dia deveria ter lugar num artigo ou dois do Código Penal. Não me lembro de ouvir a minha avó a contar histórias de aulas aeróbica e ela ainda cá está. "Ah mas no tempo dela não havia Macdonald's!". Pois não! Mas também não havia nimesulida com venda livre nas farmácias, nem endoscopias virtuais.
Anda toda a gente obcecada com a vida eterna ou é impressão minha? Gostam assim tanto deste mundo que achem que 70 anos disto não chega? Desculpem-me por ser tão radical, mas acho preferível viver descontraída durante uns bons 50 anos, respeitando regras de alimentação e exercício físico quando isso não implicar restrições severas no meu dia-a-dia. Aposto que o Senhor dos Passos largos para miséria concordaria comigo: não serve de muito investir numa velhice prolongada. Só vamos estar a dar despesa à família e ao país. Por outro lado, se daqui a 20 ou 30 anos, uma pessoa nos seus 65 deixar de estar na terceira idade para poder ainda ocupar um sólido lugar na população activa, também não é um futuro promissor. Não vejo grande interesse em prolongar a minha vida por 20 ou 30 anos para depois ficar a trabalhar como se ainda fosse jovem e a tomar aos oito copos de água por dia para acompanhar a minha medicação.
terça-feira, dezembro 20, 2011
Uma daquelas coisas que não têm explicação
Nunca percebi o que faz tanto homem no corredor dos tampões e pensos higiénicos. É que andam SEMPRE lá!
quinta-feira, dezembro 01, 2011
Apetece-me opinar
Chamem-me retrógrada, preconceituosa... Não quero saber! Na minha opinião, homens que se dizem bissexuais nunca se conseguirão satisfazer apenas com mulheres. E isto acontece porque haverá sempre um buraco vazio que elas não podem preencher.
terça-feira, novembro 29, 2011
Anúncios de Perfumes
Os anúncios da tv não costumam ser muito mais do que publicidade a novelas, hamburgers do McDonald's e iogurtes Danone (Danacol para os que comem como bestas mas têm medo de fazer análises ao sangue e Activia para quem não arreia o calhau todos os dias à mesma hora). Mas no Natal os anúncios mudam de tema.
Chega a vez da Gillette, dos ferros de engomar Fagor (presumo eu que seja para as mulheres oferecerem aos maridos e namorados, para ver se esses inúteis começam a fazer algo em casa para além de coçar os tomates e ver tv), a vez do Nespresso para aqueles 30% da população carenciada que ainda não tem uma máquina de café (sim, porque até grande parte dos pobres hoje em dia já tem uma máquina daquelas em casa, mesmo que não lhe dêem uso por não terem dinheiro para as cápsulas de café), a vez da Popota (aquela gorda sebosa que deu cabo da Leopoldina, depois de no ano passado a ter obrigado a ingerir tantos nitrofuranos que até as mamas lhe cresceram) e a vez dos perfumes.
Chega a vez da Gillette, dos ferros de engomar Fagor (presumo eu que seja para as mulheres oferecerem aos maridos e namorados, para ver se esses inúteis começam a fazer algo em casa para além de coçar os tomates e ver tv), a vez do Nespresso para aqueles 30% da população carenciada que ainda não tem uma máquina de café (sim, porque até grande parte dos pobres hoje em dia já tem uma máquina daquelas em casa, mesmo que não lhe dêem uso por não terem dinheiro para as cápsulas de café), a vez da Popota (aquela gorda sebosa que deu cabo da Leopoldina, depois de no ano passado a ter obrigado a ingerir tantos nitrofuranos que até as mamas lhe cresceram) e a vez dos perfumes.
Ah!... Perfumes. Não vivo sem eles desde os 13 anos.
Há quem escolha uma fragrância e a use todos os dias, durante todo o ano, ano após ano. O que acho disso? Impensável! Há tantos aromas deliciosos e viciantes que é impossível definir-me apenas com um. Por isso, tenho uma lista de favoritos que aumenta todos os anos na altura do Natal. Não porque tenha imensa gente a quem pedir prendas de Natal, mas porque é nesta altura que aparece sempre uma avalanche de novas fragrâncias e mais uns quantos perfumes tunning (de onde surgem uma ou duas criações bem sucedidas, como foi o caso do Hipnôse Senses, deveras superior ao original).
Desde miúda que fico a olhar para os anúncios de perfumes a tentar descodificar a mensagem. São sempre a mesma coisa: uma modelo ou actriz qualquer num vestido comprido e com os ombros à mostra a correr na cidade à noite. Pronto... Admito que nem todos são assim, mas é a ideia que tenho destes anúncios. É isso e o facto de nunca ficar com a menor ideia do que raio querem aqueles gajos transmitir com o mini-trailer. Há ali um trecho de uma novela, com certeza que há. Agora que história é essa, nunca ninguém sabe.
sábado, novembro 26, 2011
Santa's Little Helpers
Porque é que me cheira que este vídeo é fake? Dois simples motivos:
1) Um par de fedelhos com 1 e 3 anos de idade não conseguiriam espalhar equitativamente um saco de farinha pelo chão, muito menos pelo resto da sala, incluindo locais de difícil (se não mesmo impossível) acesso, como o parapeito da janela e um quadro pendurado na parede... a não ser que se tratassem de ajudantes do Pai Natal em protesto contra a exploração de trabalho infantil.
2) Nenhuma pessoa medianamente consciente e ponderada reagiria com tanta serenidade a uma catástrofe destas proporções, dando-se ao trabalho de filmar a ocorrência dos factos mal de deu conta dos mesmos, a menos que estivesse sob a influência de barbitúricos a modos que a atirar para a overdose.
Em jeito de conclusão, este vídeo é capaz de ser alguma paródia à morte da Amy Casa dos Vinhos, com a junção do que aconteceria se ela tivesse tido dois filhos com o Monstro da Tasmânia.
quinta-feira, novembro 10, 2011
Chegou o frio
Como é que todos os anos me apercebo que chega o frio? Simples. Quando dou por mim a puxar o toalhão para dentro da cabine de duche e a secar-me aproveitando o vapor de água quentinho que lá fica concentrado.
Duvido que haja mais alguém no planeta a praticar este ritual deprimente. Mas se houver, faça o favor de se pronunciar. Lembre-se que estará a fazer com que uma gaja atípica se sinta menos só no mundo.
quinta-feira, novembro 03, 2011
E tu, guias-te pelos prazos?

Se há coisa que me mete nojo é gente que organiza a sua vida em função dos prazos de validade da comida.
"Oh Francisca, tu come os iogurtes hoje porque o prazo de validade é dia 5 e já estamos a 3!". Já sabemos o que vai ser o jantar da Francisca: quatro iogurtes e uma sopa (ok, a parte da sopa não sabemos... Mas parece-me socialmente reprovável fazer um jantar só com iogurtes).
Pergunto-me o que fará esta gente quando se esquece da embalagem de manteiga ao sol numa tarde de verão. Se ainda tiver seis meses de validade segundo o rótulo, com certeza que não será o aroma a ranço que vai obrigar a deitar fora uma iguaria que tem ainda tantos dias gloriosos pela frente. É por estas e por outras que o prazo de validade é a Maya da indústria alimentar.
Antigamente não havia laboratórios de controlo de qualidade, nem havia engenharia alimentar (nem outros cursos do género, cuja função é dar emprego a duas dúzias de pessoas e conduzir centenas delas ao desemprego e à emigração). Com efeito, não havia regras que obrigassem a colocar datas que prevêem com (pouca) precisão o dia em que os ovos deixam de estar aptos para o consumo. As pessoas avaliavam o bom ou mau estado da comida pela sua cor, textura e cheiro.
Gostava de poder ensinar a essa gentinha medíocre, que vive os dias de acordo com os ditames dos carimbos, que os prazos de validade não são normas imperativas que obrigam a atirar a comida para o lixo mal se atinja aquele prazo, sob pena de aplicação da secção dos Crimes Contra a Integridade Alimentar, prevista no Código Penal.
Para quem ficou na dúvida: não, essa secção não existe... Mas devia! Deviam punir a escumalha que deita fora comida em perfeitas condições por causa do prazo de validade. E a pena aplicável deveria ser um carimbo na testa com uma mensagem do género "Não sou capaz de comer ovos caseiros porque não têm prazo de validade", um pouco à semelhança do que se faz com as advertências nos maços de tabaco. E isto faz todo o sentido, se pensarem bem, pois a convivência regular e contínua com estas pessoas (tal como com o tabaco) provoca uma morte lenta e dolorosa.
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quinta-feira, outubro 20, 2011
"Ano lectivo novo, vida nova", já dizia o meu avô
Antes de mais, as minhas sinceras desculpas pela minha falta de empenho e de assiduidade no blog aos dois ou três utilizadores que seguem com avidez as patetices que coloco aqui .
A verdade é esta: não tenho inspiração. Às vezes, apetece-me versar sobre os sons ridículos que inventaram para as notificações de mensagens instantâneas no Messenger; tenho dias em que quase venho cá para mostrar a minha indignação quanto à televisão portuguesa, que nunca, em toda a nossa história, conseguiu vocacionar tanto tempo de antena às camadas populacionais mais desprovidas de QI e de cultura geral como faz agora (sim, obviamente que estou a falar dessa nojeira de programa a que chamam Casa dos Segredos, versão II - como é que é possível fazerem uma segunda versão desta merda, meu Deus!!!).
Mas no meio dos meus pensamentos acabo por carregar no delete e deixar as ideias em águas de bacalhau. Continuo a achar que o surgimento das toalhitas húmidas de wc são a melhor invenção de sempre (a seguir ao microondas). Mas também me parece bastante improvável que metade da minha meia dúzia de seguidores queira ler sobre a frescura que as abençoadas toalhitas trouxeram à minha vida naquelas situações (escassas, felizmente) em que sou forçada a ir a um wc fora do conforto da minha casa.
Com efeito, toda a minha capacidade intelectual é esgotada numa base diária em aulas e em estudo. Sim, eu, Teresa Sanches, virei oficialmente marrona. Não uma marrona qualquer, mas sim daquelas marronas que metem nojo ao estudante comum, devido ao facto de ter o braço no ar constantemente e de saber responder a questões traiçoeiras, quando os outros fracassam.
Presumo que seja do ar que se respira na cidade universitária, por excelência. Se bem que se trata de uma afirmação dúbia, pois à noite a única coisa que se respira nesta terra é fumo de ganzas e cheiro a vómito (maioritariamente de caloiros, esses grandes malucos que estão a soltar a franga em nome da liberdade que é sair de casa dos pais com uma mesada).
De maneira que é com tamanho orgulho que venho para Coimbra e em vez de andar na noite a auto-destruir-me por meio de bebidas alcoólicas e substâncias psicotrópicas, dedico-me à minha formação académica como nunca antes o fui capaz de fazer. (E espero não agoirar a minha avidez pelo conhecimento com esta gabarolice toda!)
Em modos de conclusão, certo é que não pereci nem padeço de nenhuma maleita que me impeça de escrever. Deixei de o fazer por opção, porque causas maiores se erguem na minha nova hierarquia de interesses. Dentro dessa pirâmide não posso deixar de colocar as aulas práticas de Direito Processual Civil... e não vos vou maçar com a explicação deste fenómeno. Digo-vos tão-somente que quem conhece o Mestre Rafael Reis com certeza que saberá bem o porquê.
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domingo, julho 31, 2011
Badalhocas quem? Eu?
Já li as coisas mais improváveis e irrisórias na pesquisa por palavras-chave deste humilde blog. E podem vê-lo com os vossos próprios olhos na imagem abaixo, apesar de se tratar de uma minúscula amostra. Mas "miúdas badalhocas"... Pelo amor da santa, senhores!
J.Lo, onde anda a tua cabeça?
Consigo compreender dj's que vão buscar músicas a bandas como Vaya Con Dios, tal como compreendo artistas medíocres (sem querendo fazer elogios ao elevá-los à categoria de artistas) que vão ao baú buscar músicas como These Boots Are Made For Walking, de Nancy Sinatra.
Não consigo, contudo, compreender isto. Que será que lhe deu na cabeça?
Não consigo, contudo, compreender isto. Que será que lhe deu na cabeça?
Cinema
Ontem no cinema, após gastar 10.40 € em dois míseros bilhetes, ambos com desconto, o rapazinho entregou duas revistas Empire. Pelos vistos, a Lusomundo anda a fazer uma "atençãozinha" aos clientes.
Não consegui conter-me. Apesar de saber que estava a "fazer queixinhas" a um mero mensageiro, ripostei, com uma tremenda lata, revestida de 2/3 de pertinência e 1/3 de charme (pelo menos na minha cabeça foi assim que saiu):
"Já que nos fazem comer 15 minutos de publicidade, ao menos deixam-nos entretidos a ver revistas." (A parte do charme seria impossível de reproduzir, obviamente.)
E o rapaz ainda completou o meu raciocínio, dizendo que trailers uma pessoa ainda vê... Agora, para ver publicidade todos temos uma tv em casa.
Hoje temos imagem em HD, dolby surround, legendas brancas em vez das amarelas (que são horrendas, na minha opinião - amarelo não é a minha cor) e cadeiras ligeiramente mais confortáveis. Mas digo-vos com toda a honestidade que trocava toda esta paneleirice pelos velhos cinemas Castello Lopes. Uma sala, três filmes que passavam alternadamente e cadeiras que davam tanto apoio às costas como um puff dos chineses (porque se eles fazem bandeiras portuguesas, também hão-de fazer puffs manhosos).
Além disso, as pessoas agora atendem telemóveis em pleno decurso do filme; usam perfumes do estilo do trolha quando vai à missa em doses que devem contribuir em 30% para a destruição da camada de ozono e ainda não aprenderam a mastigar a porcaria das pipocas com a boca fechada.
Há coisas que nunca mudam... Mas são só as más.
Não consegui conter-me. Apesar de saber que estava a "fazer queixinhas" a um mero mensageiro, ripostei, com uma tremenda lata, revestida de 2/3 de pertinência e 1/3 de charme (pelo menos na minha cabeça foi assim que saiu):
"Já que nos fazem comer 15 minutos de publicidade, ao menos deixam-nos entretidos a ver revistas." (A parte do charme seria impossível de reproduzir, obviamente.)
E o rapaz ainda completou o meu raciocínio, dizendo que trailers uma pessoa ainda vê... Agora, para ver publicidade todos temos uma tv em casa.
Hoje temos imagem em HD, dolby surround, legendas brancas em vez das amarelas (que são horrendas, na minha opinião - amarelo não é a minha cor) e cadeiras ligeiramente mais confortáveis. Mas digo-vos com toda a honestidade que trocava toda esta paneleirice pelos velhos cinemas Castello Lopes. Uma sala, três filmes que passavam alternadamente e cadeiras que davam tanto apoio às costas como um puff dos chineses (porque se eles fazem bandeiras portuguesas, também hão-de fazer puffs manhosos).
Além disso, as pessoas agora atendem telemóveis em pleno decurso do filme; usam perfumes do estilo do trolha quando vai à missa em doses que devem contribuir em 30% para a destruição da camada de ozono e ainda não aprenderam a mastigar a porcaria das pipocas com a boca fechada.
Há coisas que nunca mudam... Mas são só as más.
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quarta-feira, julho 27, 2011
Divagações
"Vocês, mulheres, têm a faca e o queijo na mão!"
Ora bem... Se já temos a faca, para que queremos o queijo?! Não faz sentido nenhum.
Ora bem... Se já temos a faca, para que queremos o queijo?! Não faz sentido nenhum.
domingo, junho 12, 2011
Um futuro jurista, quem sabe!...
A verdadeira arte de andar à volta do assunto, falando muito sem dizer quase nada.
Acho fantástico o poder de autoridade que o pai exerce sobre o miúdo, enquanto a mãe se limita a perguntar sem obter resposta. =)
Cá para mim, já sabia que se não contasse ao pai mal ele lhe perguntou como foi ali parar, levava logo uma palmada no rabo assim que de lá saísse!
Thumbs up evewybody... For wock and woll!
Adoro este miúdo. Não me canso de ver o vídeo. Espero que também gostem. =)
A Derrota
É com algum desânimo (ou talvez nem por isso) que vos venho hoje comunicar que desisti de tentar aplicar o novo acordo ortográfico. Tentei, com árduo esforço, corrigir os ímpetos da rotineira escrita, tão enraizada no meu cérebro.
Mas a verdade é esta: demoro o triplo do tempo a escrever o que quer que seja. Olho para as palavras e parecem-me feias e deturpadas. E, se na escrita por computador é simples corrigir, quando se trata de papel e caneta, a coisa muda de proporção.
Tentei ver o lado bom da questão. Esforcei-me por pegar nas críticas que as pessoas andam a fazer ao acordo e mostrar outra perspectiva. Mas o património cultural que vive dentro de mim fala cada vez mais alto.
Cada vez me revolta mais a fraca personalidade dos nossos líderes. A constante necessidade de agradar a gregos e troianos... Ou a brasileiros e angolanos, melhor dizendo.
Sim, somos um país pequeno e pobre. Mas, para além de estarmos condenados à imagem amarelecida d'Os Descobrimentos e termos que admitir que a fama actual do nosso povo se resume a três ou quatro nomes do Futebol, a uma boa gastronomia e a uma péssima, mas célebre, gestão político-económica, ainda temos que nos rebaixar perante quem destruiu a nossa língua. Temos que abdicar das nossas regras gramaticais e da etimologia para nos assemelharmos àqueles que mutilaram a Língua Portuguesa ao sabor do analfabetismo e da falta de brio.
Destarte, cessam aqui todos os meus esforços pela harmonização às regras de um acordo que não aceitei, quer expressa quer tacitamente.
Post Scriptum: Será que alguém está a ver os ingleses a abdicar do seu sotaque para falar o Inglês dos americanos? Ou a passarem a escrever "colour" sem o u só porque é assim que os americanos decidiram escrever? Pois... Também me parece que não.
Mas a verdade é esta: demoro o triplo do tempo a escrever o que quer que seja. Olho para as palavras e parecem-me feias e deturpadas. E, se na escrita por computador é simples corrigir, quando se trata de papel e caneta, a coisa muda de proporção.
Tentei ver o lado bom da questão. Esforcei-me por pegar nas críticas que as pessoas andam a fazer ao acordo e mostrar outra perspectiva. Mas o património cultural que vive dentro de mim fala cada vez mais alto.
Cada vez me revolta mais a fraca personalidade dos nossos líderes. A constante necessidade de agradar a gregos e troianos... Ou a brasileiros e angolanos, melhor dizendo.
Sim, somos um país pequeno e pobre. Mas, para além de estarmos condenados à imagem amarelecida d'Os Descobrimentos e termos que admitir que a fama actual do nosso povo se resume a três ou quatro nomes do Futebol, a uma boa gastronomia e a uma péssima, mas célebre, gestão político-económica, ainda temos que nos rebaixar perante quem destruiu a nossa língua. Temos que abdicar das nossas regras gramaticais e da etimologia para nos assemelharmos àqueles que mutilaram a Língua Portuguesa ao sabor do analfabetismo e da falta de brio.
Destarte, cessam aqui todos os meus esforços pela harmonização às regras de um acordo que não aceitei, quer expressa quer tacitamente.
Post Scriptum: Será que alguém está a ver os ingleses a abdicar do seu sotaque para falar o Inglês dos americanos? Ou a passarem a escrever "colour" sem o u só porque é assim que os americanos decidiram escrever? Pois... Também me parece que não.
sábado, junho 04, 2011
É o que eu sou
"Deus, dai-me a coragem para mudar as coisas que posso... E a humildade para aceitar aquelas que não posso."
Estejamos em 1965 ou em 2011, as crianças serão sempre cruéis umas para as outras, tal como os jovens e os adultos o são. A diferença resume-se à espontaneidade e à transparência.
O que é a justiça? Não é o que está na lei. Não é ver a apodrecer na cadeia um homem que matou outro. Não é ganhar 50 000€ numa lotaria quando se está teso. Não é ter 17 valores num exame por se ser craque. Ser merecedor de algo não nos dá um bilhete para ganhar uma fatia de justiça.
"Viver honestamente; não fazer o mal e atribuir a cada um aquilo que é seu", dizia Ulpianus. Contudo, mesmo levando estas três regras à risca, pode não haver justiça.
A justiça é uma Utopia que se alcança de vez em quando. E digo-o com convicção. Digo-o porque casos há em que se faz justiça, mas não tão poucos serão aqueles que lhe ficam aquém. É um mero lançar de dados. A justiça está na nossa cabeça, mas também pode estar no coração. E pode ainda estar à frente dos nossos olhos sem nunca estar ao alcance das nossas mãos.
Encontrar forma de fazer justiça pondo de lado a sua aleatoriedade será tão difícil como atingir a paz mundial, ou encontrar a cura para o cancro. Mas enquanto houver pessoas no mundo que nos deem ânimo para lutar por ela, o acaso diminui na proporção em que a força aumenta.
É um filme emocionante, uma história com um toque de originalidade. Não obstante, a cereja no topo do bolo é aquela lição de moral que alguns sentiram na própria pele; que outros adquiriram por intermédio dos colegas; e outros que nunca a aprenderam e, por esse motivo, estão condenados a ser uns cabrões para o resto da vida.
sexta-feira, maio 27, 2011
em tempo de eleições fica bem fazer promessas
No seguimento do post anterior, quero deixar aqui bem assente que vou fazer uma promessa para comigo mesma. Não como velhaca que negoceia com o Senhor, mas como portuguesa que está descontente com a vida política do seu país e de todos os nacionais que, se sujeitos a um teste de QI, revelariam um valor de dois dígitos... Ou de um só.
E aqui fica ela:
Sempre que tiver de acrescentar alguma coisa, em qualquer texto, vou passar a escrever POST SCRIPTUM. Nunca, mas NUNCA MAIS voltarei a utilizar a abreviatura.
A caminhada dos coitadinhos
Depois de tanto tempo sem manifestações ideológicas de qualquer índole, parece que será de exigir um texto com uma qualidade para além do razoavelzinho, pelo que decidi expor hoje mais um pensamento controverso que cogito há uns aninhos.
Pois bem, chegou a vez da religião.
Não fiquem já com a falsa ideia de que venho para aqui criticar as histórias mirabolantes e tão criativamente elaboradas da Bíblia, ou que acho que deviam deixar os muçulmanos resolver os seus assuntos sem intervenções norte-americanas ou europeias (o mesmo será dizer "deixar que se matem uns aos outros"). Nada disso.
Venho somente expressar o meu repúdio pelos ditos católicos não praticantes que, na altura de aflição extrema, se agarram à Nossa Senhora de Fátima a pedir o que calha, quais crianças de cinco anos que se sentam no colo de um velho com barbas postiças num centro comercial em dezembro.
Quando alguém tem um acidente grave e sobrevive com sequelas minimais, todos dizem "graças a Deus!", porque foi n'Ele que estiveram a pensar na sala de espera. Tal como todo o estudante medíocre reza para passar no exame que está prestes a começar... Ou quando alguém que tem medo de alturas mas se quis aventurar numa experiência radical, só se lembra de dizer "ai meu Deus".
Ninguém na sala de espera está a pensar se os médicos que estão a cuidar do sinistrado são profissionais competentes; nenhum estudante sente o peso de consciência por não ter estudado o suficiente até ver a nota, nem ninguém que se mete a fazer bungee jumping vai perguntar aos homens que o estão a prender às cordas se tiraram alguma formação especializada na área e se todo o equipamento preenche os requisitos de segurança (até porque, se o fizesse, respondiam que sim a tudo com um grande sorriso, mas não haveria papelada para comprovar).
E isto tudo para dizer o quê? Que sinto uma náusea quando penso nas pessoas que subitamente ganham fé em alguma coisa (e digo alguma coisa porque em Deus não será) quando estão à beira da catástrofe e decidem fazer um acordo com Deus, decidindo ir a pé para Fátima se os seus problemas desaparecerem no espaço de um mês ou dois. Sim, porque esta gente não quer saber das prioridades do Senhor. Se há um pacto para ir a pé para Fátima, ganha logo um ponto de exclamação vermelho na caixa de correio da santíssima trindade.
Não sou ateia, nem agnóstica, nem coisa nenhuma. Mas a hipocrisia não tem religião. E acho que quem está em desespero e quer algo do universo, devia orientar-se pelos pretensos princípios do catolicismo. Como quem diz, em vez da caminhada até Fátima, que decidam ser melhores dali para a frente. Que decidam amar a vida, ajudar os outros, fazer coisas úteis.
Agora, ir a pé para Fátima em troca de um milagre, na minha opinião, para além de banalizar a religião, é ver Deus como um usurário (sovina, para os leigos)... A não ser que se queira fazer uma grande caminhada para emagrecer uns quilinhos ou ir visitar o santuário sem pagar portagens nem gastar dinheiro em combustível. Mas, nesse caso, não venham dizer que é para pagar uma promessa ao Senhor. Porque, quem acredita nessas coisas da religião acredita também que o que se faz nesta vida se paga com boas ações e se julga na altura da morte.
sábado, abril 30, 2011
O pânico do Acordo Ortográfico
Eis um assunto que já irrita, mas que me parece ser de toda a pertinência explorar convenientemente. Convenientemente, não... Minimamente. E decidi alterar o advérbio de modo por um motivo muito simples: o maldito Acordo é dúbio para toda a gente e, pelo que me deu a entender no site http://www.portaldalinguaportuguesa.org/ , os eruditos não são exceção (é assim que se escreve agora, não é?).
Bom, como já todos estamos fartos de ouvir por aí, cerca de 95% da população é contra o Acordo. Compreende-se. Afinal, estamos num país de preguiçosos que nem a língua sem o Acordo aplicado sabem escrever. Mas isto é apenas um aparte.
Acho que esses cerca de 95% de portugueses estão a pensar - tal como eu - que não temos nada que andar a alterar a nossa escrita para nos adaptarmos ao que os brasileiros fazem na terra deles e que nos últimos anos têm vindo a fazer na nossa também. Sendo que, na sua maioria, até o fazem ilegalmente... Mas isso já é problema do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e não meu, nem do leitor, com certeza (agora que já chateia tanto imigrante ilegal, chateia. E não é pouco).
Mas, para voltar ao assunto essencial, acho que todo o português com o mínimo de orgulho no seu património linguístico acha mal que a língua portuguesa se tenha que adaptar aos povos com língua oficial portuguesa porque, se a língua oficial é a nossa, são eles que têm que falar como se fala em Portugal, pois é daqui que a língua vem.
E até aqui, tudo ótimo. Estou plenamente de acordo. Até porque a nossa língua é das poucas coisas de que nos podemos orgulhar nesta altura de crise.
O grande mal dos tais cerca de 95% de portugueses é que não tiveram o cuidado de ir ao site supracitado e ver o que é que afinal se vai alterar.
"Ah e tal, eu cá é que não vou tirar o c ao facto!" Oh meus amigos... Ninguém disse que se vai começar a mutilar as palavras como quem corta o clitóris às raparigas nas tribos africanas! (Piada pesada, eu sei. Culpem antes a TVI por andar a fazer reportagens destas em horário nobre, sim?)
Só hoje é que eu própria me dei ao trabalho de ir ao site ver o que é que vai mudar. E agora posso afirmar com convicção que não está tão mal feito quanto isso.
Se bem sabem (ou se não sabiam, ficam a saber), a famigerada CP, não vem de "Comboios de Portugal", como já ouvi dizer, mas sim de Caminhos de Pherro. Ora, que eu saiba, na nossa língua não se usa ph para traduzir o som do f. Usa-se o f, porque é bem mais simples e faz todo o sentido.
E este é apenas um exemplo de evolução da língua. À medida que os tempos mudam, surgem novos instrumentos, surgem novas necessidades e deixam de se usar certos costumes. A mudança é sempre inevitável. Umas vezes é boa, outras nem por isso. O que é certo é que implica quebra de rotinas, alteração de hábitos. E, como isso dá trabalho, lá vêm os 95% manifestar-se. Outra atitude não seria de esperar.
Pois aproveito para vir aqui manifestar o meu contentamento (no geral) com o acordo ortográfico. Admito que vai ser complicado ver-me livre do c em ação e do mp em perentório, porque já está enraizado na minha cabeça. Mas tenho que admitir que se as consoantes são mudas, não estão lá a fazer nada. São como os manuais com bolinha vermelha na biblioteca: de que me serve que estejam lá se não os posso levar para casa por três míseros dias para os ler descansada?
Espero sinceramente que se quebre o mito de que vamos passar a escrever "fato" em vez de facto, só porque os brasileiros são preguiçosos e decidiram identificar duas coisas absolutamente distintas com o mesmo nome. Isso é lá com eles. Sempre houve palavras homónimas na nossa língua e somos obrigados a conviver com isso. Mas se sempre tivemos em conta o c, não vai ser agora que o vamos cortar da escrita para continuar a usá-lo na oralidade, ou será que não são capazes de ver aqui o contrassenso? Pelo amor da santa, senhores. Se fôssemos por esse caminho, então passaríamos a escrever "pato" em vez de pacto!
P.S.: As minhas sinceras desculpas aos meus queridos e assíduos seguidores brasileiros. Espero que compreendam que ao vos considerar preguiçosos por causa da problemática do "fato", estava apenas a fazer uma piada fácil. =)
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