A meio da minha oral de passagem de Direito Constitucional, a Drª Cristina Queiroz interrompeu o meu discurso para tecer o seguinte comentário:
"Você não gosta nada de política, pois não?"
Ao qual tive que honestamente responder com algo como "não... nem por isso", enquanto sentia o ar de repúdio e desprezo da sua parte. Não a censuro. É quase um contra-senso uma aluna de Direito não vibrar com política. Só que não iria ser numa oral de Constitucional que iria justificar a minha aparente indiferença perante tal assunto.
Há quem diga que política, religião e futebol são os três assuntos que nunca se discutem. Ora, todos nós sabemos que o que não falta por aí é gente a opinar sobre a lastimável performance do Sporting; sobre o atraso na investigação científica que a Igreja causou durante séculos e ainda sobre a (desculpem-me o atrevimento) cambada de burros e preguiçosos que governa este país todos os anos.
Não sei se isto é novidade para alguém, mas quer-me parecer que o problema vem da raiz. Há poucos séculos atrás, livrámo-nos da monarquia para cairmos na ideia mais utópica da humanidade (a seguir ao comunismo, obviamente): a democracia.
Surge no séc. XIX a ideia do Estado Representativo. O povo achava que o governo seria melhor se, em vez de nos guiarmos pela razão de um, nos guiássemos pela razão de todos. E esta, sendo impossível na prática, seria concretizada na eleição de representantes do povo, que defenderiam brilhantemente os seus direitos. Errado!
E o problema vem da raiz precisamente porque o povo não percebe nada de governação. Hoje em dia, a população até está mais instruída (e desempregada), mas, mesmo assim, a opinião pública continua a formar-se em tascas manhosas, porque há sempre um chico-esperto que acha que percebe umas coisas de política e influencia os quase-analfabetos que não têm nada melhor para fazer do que ouvir os seus disparates.
Pessoalmente, acho uma tremenda irresponsabilidade permitir que qualquer pessoa possa decidir sobre o que quer que seja que se faz no país. "Ah e tal... porque somos todos iguais." Somos todos iguais o tanas! Há gente inteligente e gente limitada, pessoas sem estudos mas com capacidades intelectuais, pessoas com licenciaturas mas que não são mais do que calhaus com olhos, pessoas que sabem muito sobre muita coisa mas que não percebem nada de política, etc., etc..
Para se decidir o próximo "Ídolo", não só vota quem quer, como ainda metem três sujeitos que supostamente percebem de música a decidir e a comentar a actuação das pessoas que vão para lá cantar (tal como se dão ao trabalho de comentar as actuações daqueles que só vão para lá fazer figura de parvos). E, além disso, colocam-se anúncios por todo o lado, para que haja alarme social. Para que toda a gente saiba de onde vêm os concorrentes. Até reservam partes dos programas para se saber da vida deles, quais as suas opiniões, expectativas e mais não sei o quê.
No entanto, quando há campanhas eleitorais, ninguém nos vem informar sobre o passado dos políticos. Onde estudaram, o que estudaram, com que média acabaram o curso, que tipo de integridade moral têm e por aí fora. Não senhor. Metem-nos lá a falar do que lhes apetece, que é sempre o mesmo. Falar mal de quem está no poder, criticar e apontar erros.
Pois eu não quero saber o que é que eles acham dos fulanos que estão no poder. Quero saber sim quem são eles para acharem que podem fazer melhor. E quero ideias concretas, com suporte em estatísticas e estudos sobre o assunto, devidamente fundamentados. Quero saber o seu QI, quero resultados de testes psico-técnicos e avaliações psicológicas que me digam se estão aptos a governar um país. Quero saber se estão a concorrer porque chegaram lá sozinhos ou se são "primos afastados" deste ministro ou daquele deputado.
Com tanto psicólogo no desemprego, nunca ninguém se lembrou que eles podiam avaliar os potenciais administradores desta nação? Nunca ocorreu a ninguém que as campanhas eleitorais são tão ridículas e aborrecidas que acabam por apelar à abstenção?
E que merda é esta do sufrágio universal? Não nos esqueçamos que "o povo" pode saber que paga impostos para tudo e mais alguma coisa, mas paga-os na mesma. Toda a gente se queixa, mas ninguém faz nada. Tal como quem vota não sabe o que está a fazer, porque não tem a informação de que necessita para escolher os seus representantes.
E é por isto que eu não gosto de política. Porque a minha perspectiva sobre o assunto levaria a uma ditadura, se levada ao extremo... Ou pelo menos a uma aristocracia. Um governo de elite. A opinião do povo não valeria grande coisa, a não ser que se conseguisse provar que quem votasse saberia o que estava a fazer. E não era qualquer pessoa que governava. Só os que passassem nos testes. Seria uma espécie de concurso aos cargos, onde venceria o melhor. E falo em "melhor" no sentido de mais apto, não como acontece agora, onde quem vence é o "melhor aldrabão".
Onde o fútil, o inútil e o insignificante ganham forma... Dentro de uma perspectiva cor de rosa.
Advertência
A Esquizofrenia Cor de Rosa é um espaço onde são despejados pensamentos, o mais inalterados possível da sua forma primordial. Não se pretende aqui construir um "cantinho" de discussão científica, filosófica, religiosa, histórica ou de qualquer outra índole. A realidade dança o tango com a ficção; o senso comum luta com a ciência, numa batalha onde ninguém sairá vencedor. Cabe-lhe a si, leitor, interpretar da maneira que lhe aprouver. Sinta-se livre para comentar, criticar ou lançar sugestões!
quinta-feira, março 10, 2011
segunda-feira, fevereiro 28, 2011
Certezas Incertas
Estabelecer metas. Dar o melhor. Enfrentar cada dia de cabeça erguida com um sorriso do tamanho do mundo. Dar gargalhadas bem altas, ao som de uma piada insignificante, quando lá no fundo apetece gritar, fugir, desaparecer. Agradar àqueles que esperam algo de nós. Esforçarmo-nos por dar tudo quando no fim só acabamos por desiludir. Fracassar. A dor de olhar para trás e pensar que tínhamos tudo para atingir o dito potencial (o que quer que isso seja). As lágrimas que rebentam como balões de água que acabaram de tocar o chão. A incerteza de viver cada dia sabendo que ele faz parte de uma escolha que amanhã pode ser errada.
O sofrimento de estar de mãos apertadas quando queremos mudar o mundo. A vergonha de olhar no espelho e apercebermo-nos de que quem muda somos nós. E mudamos para o que achávamos que estava mal, na esperança de estarmos mais uma vez enganados, no sonho de amanhã aparecer algo que dê sentido à vida. Algo que nos mostre que a dor é recompensada.
Mas e se esse dia não chegar? E se surgir um momento de luz que apague as certezas incertas? Se o caminho que andámos a percorrer der ao ponto de partida?
Voltamos a percorrê-lo, enquanto fechamos as feridas do passado... Até que elas não passem de marcas na nossa pele, quais mensagens gravadas num tronco de uma árvore. Caímos para aprendermos a levantar-nos. Erramos para aprender a acertar. Um dia, um mês, uma vida. O desafio só acaba quando deixarmos de acreditar.
domingo, fevereiro 06, 2011
Burlesque
Se há coisa que eu sempre gostei de ver são gajas giras e boas a dançar com roupas sensuais e cheias de estilo. E esta ainda por cima canta (e bem!). Maquilhagem e outros retoques aparte, ela é lindíssima.
Quando vi pela primeira vez o cartaz do filme, pensei "Hmm...Cher e Christina Aguilera num filme... Tenho de ver isto". E não me arrependi.
Nunca fui grande fã de musicais. Talvez a minha mente seja demasiado realista e quadrada... Mas sempre me irritou estar a ver uma história mais ou menos interessante e, de repente, os actores começarem a cantar e a dançar do nada. Não faz sentido nenhum. Tira todo o realismo à coisa. Mesmo quando assistimos a uma ficção científica, o escopo do filme anda à volta de o assemelhar à realidade. É isso que se quer numa história, que ela (por muito surrealista que seja) tenha um toque de verosimilhança tal que nos transporte para lá, que nos faça acreditar que aquilo poderia acontecer, nem que fosse num universo paralelo. E nos musicais isso nunca acontece pois, a não ser que andássemos todos sob o efeito de alucinogénicos, ninguém seria capaz de viver o dia-a-dia como se fosse uma Dorothy Gale.
E eis que hoje encontrei o Burlesque num formato de qualidade bastante aceitável (shiu, não leram isto aqui!) e perdi a cabeça. Não fiquei nada desiludida. Afinal não é um musical - não, pelo menos, na minha definição de musical. É uma história vulgaríssima, da miúda do interior cheia de talento que pega nos seus trapos e vai para a cidade tentar ser alguém.
Vejam lá que eu nem me dei ao trabalho de ver um trailer do filme para ter uma ideia do que dali ia sair! (Às vezes faço isso, para não fazer ideia nenhuma do que vai acontecer.) E, apesar de a história em si não ter surpreendido, as músicas e as coreografias são fantásticas. Já para não falar da melhor surpresa! Sabem quem é o Eric Dane? Aquele que encena o cirurgião plástico com mais pinta e ar de filha-da-putice que alguma vez se poderá encontrar numa série? Estou a falar do Mark, aka McSteamy, de Grey's Anatomy.
Pois é, esse charme de homem aparece no filme. E a vadia que vive dentro de mim rezou o tempo todo para ver a personagem principal numa cena badalhoca com ele. Mas não. Nichts, niente! Vai apaixonar-se por um rapazote com ar de paneleirão e, como santinha que é, não se mete com mais ninguém, mesmo sabendo que podia ter o mundo inteiro a seus pés. Mas tirando isso, recomendo vivamente o filme. =)
domingo, janeiro 30, 2011
Não há nada pior que um wc público
Quando era miúda, se fosse a uma casa de banho no café da vila, lavava as mãozinhas num pedaço de sabão azul e branco e limpava-as numa toalha de felpo com rendas e flores pirosas bordadas. Mas agora não. Agora há higiene e saúde por todo o lado! As casas de banho públicas não escaparam às modernices da nova era.
... Ou então não.
Se há memória que não engana, é a do olfacto. E os wc continuam a cheirar igualmente mal. Não vamos estar com eufemismos. Cheiram a chichi ressequido e a merda. Tal como sempre cheiraram. Só que antigamente usava-se lixívia ao final do dia de trabalho e agora lava-se o chão de 3 em 3 horas com qualquer coisa que o deixa escorregadio a tal ponto que é preciso avisar os potenciais utentes com sinais gráficos amarelos.
As toalhas de felpo podiam não ser a melhor escolha, pois não sabemos se quem se limpou lá antes de nós lavou bem as mãos ou se tinha doenças contagiosas. É verdade.
O sabonete líquido evita que se passem os germes de umas pessoas para as outras, sim senhor.
Mas cerca de 60% das vezes que se lava as mãos num wc público, não há sabonete. E o pior é que além de só passarmos as mãos por água, vamos secá-las em máquinas que deitam ar quente. Além de se gastar energia, promove-se o desenvolvimento de bactérias nas mãos.
Ora mas que rica higiene!
terça-feira, janeiro 18, 2011
a gramática foi pela pia abaixo
Anda por aí uma moda parva, ridícula, atrofiante e insolitamente ESTÚPIDA de dizer "ah e tal... é um personagem".
É O QUÊ??? É UH QUIÊH?!?!?! [indignação com sotaque do Porto]
Oh meus amigos... vamos lá ver uma coisa: a língua portuguesa (como tantas outras línguas e tantas outras manifestações culturais) já é machista só por si! O macho anda por todo o lado a exibir o pêlo facial e os tomatinhos inchados, todo pintarolas porque tem o órgão sexual no exterior do corpo. E acha-se o maior por causa disso. Sempre achou.
Pois eu acho que ter o órgão sexual no interior do corpo é bem melhor! E também sempre o achei. Nunca fiquei com a passarinha entalada no fecho das calças, nem nunca amassei as bolas a andar numa bicicleta (tudo bem que também causa algum desconforto, mas essa não é a questão essencial).
Se estiver à nossa frente um homem, diz-se "Ele"; se estiver uma mulher, diz-se "Ela"; se estiver um homem e uma mulher, diz-se "Eles... Se estiverem vinte mulheres e um homem, diz-se "Eles".
Isto é suficiente para me causar indignação que chegue a propósito do cheiro a macho na língua portuguesa. Era só o que me faltava ter que aturar com "o personagem para cá" e "o personagem para lá". Não tendes uma gramática em casa, senhores jornalistas, escritores e afins? Não andasteis na escola primária, tal como eu andei? Ou será que só eu é que aprendi que "personagem" é um SUBSTANTIVO COMUM DE NÚMERO SINGULAR E GÉNERO FEMININO???
É O QUÊ??? É UH QUIÊH?!?!?! [indignação com sotaque do Porto]
Oh meus amigos... vamos lá ver uma coisa: a língua portuguesa (como tantas outras línguas e tantas outras manifestações culturais) já é machista só por si! O macho anda por todo o lado a exibir o pêlo facial e os tomatinhos inchados, todo pintarolas porque tem o órgão sexual no exterior do corpo. E acha-se o maior por causa disso. Sempre achou.
Pois eu acho que ter o órgão sexual no interior do corpo é bem melhor! E também sempre o achei. Nunca fiquei com a passarinha entalada no fecho das calças, nem nunca amassei as bolas a andar numa bicicleta (tudo bem que também causa algum desconforto, mas essa não é a questão essencial).
Se estiver à nossa frente um homem, diz-se "Ele"; se estiver uma mulher, diz-se "Ela"; se estiver um homem e uma mulher, diz-se "Eles... Se estiverem vinte mulheres e um homem, diz-se "Eles".
Isto é suficiente para me causar indignação que chegue a propósito do cheiro a macho na língua portuguesa. Era só o que me faltava ter que aturar com "o personagem para cá" e "o personagem para lá". Não tendes uma gramática em casa, senhores jornalistas, escritores e afins? Não andasteis na escola primária, tal como eu andei? Ou será que só eu é que aprendi que "personagem" é um SUBSTANTIVO COMUM DE NÚMERO SINGULAR E GÉNERO FEMININO???
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